Uma situação é ignorada em São Paulo mais que todas as questões importante que a cidade tem, trata-se no caso das pessoas que vão morar nas ruas. Ignoradas pela sociedade, essas pessoas sempre existiram no centro de São Paulo mas não na quantidade que existe hoje 2020.
Eu me lembro que quando eu era pequeno nos anos 80, a quantidade de moradores de rua não era tão significativa, era comum até as pessoas associarem o morador de rua daquele local à rotina do bairro ou da rua, o mendigo de um determinado local era quase um folclore, todos conheciam e já sabiam da sua história, cada local 'tinha' o 'seu'.
Nos anos 80 onde eu vivi em São Paulo no bairro da Bela Vista, o mendigo era o "Maloca", era um senhor branco de pele meio avermelhada , cabelos brancos, bigode preto e uma doença na perna , o que o força a andar com uma muleta. Não tinha criança que não o conhecesse, todos tinham medo dele embora ele não fizesse mal a ninguém, o pavor criado em torno dele era exclusivamente pela fisionomia de poucos amigos que dele além de viver alcoolizado.
Na Bela Vista o único mendigo que eu conhecia era ele, parecia ser até um certo tipo de sub celebridade local.
Chegando perto do final dos anos 90 os poucos mendigos disputavam lugar com as famosas 'crianças de rua' que ficavam vagando principalmente pelos locais centrais de São Paulo cheirando cola de sapateiro, principalmente no vale do Anhangabaú. Você andava por 20 minutos no centro de São Paulo e via uma criança ou adolescente com um saco de plástico no rosto sendo aspirado , dentro dele tinha cola de sapateiro, esses jovens ficavam sobre efeito químico da cola e aí começavam gritar e fazer coisas estranhas, as pessoas chamavam esses jovens de "cheiradores de cola" ou "cheirador de cola".
Já no começo dos anos 2000 surge com vigor em São Paulo o crack e com isso a cola de sapateiro aos poucos vai sendo trocada, o seu público não era as crianças mas sim pessoas entre 20 e 40 anos que passaram a consumir a droga de forma coletiva em locais desertos a noite no centro de São Paulo.
A primeira vez que eu vi um local de consumo de crack(cracolandia) em São Paulo foi até engraçado, eu acho que era em 2003, eu estava passando desavidamente por uma rua do centro lá pelas 19hs e vi um monte de gente ocupando o meio da rua fazendo movimentos engraçados, como estava escuro eu jurava se tratar de alguma manifestação artística, um evento cultural doido desses como a "Virada Cultural" , só que eu fui me aproximando e notei que não havia música, bebidas ou petiscos como é de se esperar nesses eventos, todo mundo estava intensionava de forma frenética acender a droga do seu próprio cachimbo e nada mais, não havia show, música ou outro evento, quando eu vi eu estava pela primeira vez vendo a cracolândia na rua dos motoqueiros, a General Osório. Não entendi nada e fui embora. Depois chegando em casa eu pesquisei e passei a saber do que se tratava.
O crack trouxe várias pessoas a tal cracolândia, um monte de gente as mais variadas histórias num único local da cidade consumindo droga de forma desenfreada como se fossem robôs defeituosos. Nenhum governante conseguia acabar com tal orgia do crack no centro de São Paulo, quando muito, só fragmentava a concentração de viciados, isso devido às leis que deixam o governo sem ter muito o que fazer de forma realmente assertiva.
Em 2016 a coisa piorou de vez pra São Paulo, a cracolândia e a venda de drogas se ampliaram, vendedores de droga se disfarçam com cobertas de moradores de rua e vão vender drogas pra quem quiser de forma dissimulada ou as vezes até anunciando na rua como se fosse numa feira, há de tudo, no meio dos viciados se encontram pessoas que tiveram azar na vida, gente que fugiu de casa devido a maus tratos, gente com problemas mentais, ex presidiários, assaltantes de celular, traficantes e prostitutas , a todo esse coletivo os próprios integrantes dão o nome de "O fluxo". Existem várias casas e prédios ao redor da cracolândia onde alguns moradores, "trabalham" quebrando pedras de crack para abastecer o local de droga, quem mora nos edifícios no entorno sabe: vira e mexe chega um vizinho estranho que aluga um apartamento qualquer e depois começa a fazer barulho de quebração de pedra no local, de forma metódica, com horário, como se fosse uma empresa, incomodando todos os moradores, no máximo acontece dessas pessoas se mudarem por receberem reclamações dos vizinhos, elas mudam e depois volta outra pior em seu lugar, sempre fazendo barulho de quebra de pedras grandes no chão, se a laje é fina, a vida de quem mora em baixo se torna um inferno.
Com isso tudo a cracolândia se expandiu, ganhou ramificações e incentivou mais moradores de rua aparecem, mesmo aqueles que não são dependentes químicos, há até um ditado popular em São Paulo que diz:
"Se nada der certo na minha vida, vou pra a cracolândia!"
De 2017 até 2020 a situação só agravou, a cracolândia teve um efeito de "normalização" da miséria paulistana, uma cidade que era normal ter 2 mendigos transitando por bairro agora conta com mais de 30 mil moradores de rua espalhados por todos os cantos: uns consomem droga, uns vendem lixo nos locais de reciclagem que tornam o seu entorno mais degradado, outros tentam limpar de forma forçada os vidros dos carros para ganharem uma gorjeta pela "limpeza", outros abrem todos lixos procurando latas de cerveja e comida, outros roubam desavisados que passam pela rua, outros ficam caídos em frente aos supermercados esperando uma doação, outros pedem à esmo e outros de tão doentes ficam se arrastando pelas ruas sem saber o que fazer. Tudo isso num clima de normalização irritante que a cracolândia ajudou a consolidar por todos esses anos.
Hoje em dia, 2020, no centro de São Paulo você acaba vendo mais moradores de rua do que pombos. Se você vai ao supermercado tem uns 5 caídos no chão lhe pedindo coisas. De manhã, sair para comprar algo é muito arriscado pois é a hora que muitos jovens de rua acordam famintos, alguns até entram dentro do supermercado onde você vai para tirarem coisas da prateleiras e pedir para você pagar para eles, chegou a esse ponto a cidade tida como a mais rica da América Latina.
Em São Paulo existe um célebre viaduto chamado de "Minhocão" , ele ajuda ligar a região central de São Paulo à zona oeste, por muitos anos ele foi considerado uma obra feia por ser sombria e cheia de frestas de vazamentos por onde nascem plantas, hoje ele serve de forma involuntária como lar de centenas de moradores de rua que cada vez se multiplicam mais. Há quem diga ter visto carros de outros municípios de São Paulo e até do Brasil despejarem de forma sorrateira, moradores de rua de suas cidades, no centro de São Paulo.
Bairros que a tempos atrás eram considerados nobres e à prova desses problemas, como Higienópolis, o bairro do ex presidente Fernando Henrique, hoje vê cada dia mais suas ruas serem tomadas por barracas de camping de mendigos, "moda" essa que começou inspirada pela necessidade nos mendigos norte americanos. Av. Angélica, rua Bahia, Martins Francisco e outra do bairro estão cheias dessas barracas, os bancos 24 horas perto desses locais, a noite viram albergues e ninguém de bom senso ousa a tirar dinheiro neles.
A avenida que foi símbolo da riqueza de São Paulo a pouco tempo atrás, a Paulista, a noite agora tem todas as portas de seus poderosos bancos como moradia de mendigos ou ponto de usuário de aplicativo de entrega de refeições.
Eu me lembro que em 2001, uma vez eu estava com muito calor na av. Paulista e sentei para me refrescar na escadaria de um banco famoso dali, rapidamente o segurança me disse educadamente para eu não ficar naquele local, mesmo tendo um enorme espaço sobrando para passarem, hoje em dia, tem tanto morador de rua no local que é capaz do guarda apanhar se for reclamar de ter gente sentada lá, a av. Paulista a noite virou um lugar indesejado para se andar hoje em dia.Ali perto mesmo, na av. Brigadeiro Luiz Antônio tem um hipermercado muito famoso onde era comum e gostoso fazer compras a noite, ele tem um estacionamento grande e dentro dele as coisas eram mais seguras, fui lá fazer umas compras a noite e entre o estacionamento e a rua, em frente ao mercado e o ponto de ônibus, tinham uns 6 caras mais uma mulher, todos com cara viciados , brigando com o guardinha do mercado e pedindo coisas para quem passasse em direção ao mercado, ou seja, é um lugar que não dá mais para se ir a noite de forma tranquila, principalmente se você tem algo de valor como um celular.
Enfim, se você pegar um vídeo de São Paulo como era antigamente nos anos 60 e 70, vai perceber que embora a cidade tenha ficado mais moderna, também teve a miséria aumentada além de ter muito mais sujeira na rua.
É proibido andar em São Paulo despreocupadamente para passear ou se distrair parado em um ponto, se você faz isso, logo chega perto de você uma pessoa lhe encarando com um olhar ameaçador lhe pedindo algo de forma insistente.
Você, hoje em dia, não se sente mais bem por ter alguma coisa em São Paulo, você se sente mal tendo um celular ou tendo dinheiro para comprar alguma refeição na rua. Dá impressão que você está praticando algum tipo de pecado se você não vive em miséria no centro de São Paulo, não tem um local que você consiga se sentir bem ao passear, as ruas estão lotadas de pessoas doentes jogadas, em todo local tem uma pessoa que daria a sua vida para tomar o que tem na sua mão, pessoas lhe pedindo até mesmo pão. Se você não faz uma cara feia, uns quarenta caras chegam em você para lhe pedir de tudo.
Se você cai na besteira de esboçar um sorriso na rua entre os seus amigos, é quase uma sentença de que você será assaltado ou abordado. A cidade de São Paulo toda está lotada de doentes mentais, viciados, mendigos e vendedores de crack camuflados em cobertas , é quase impossível sair nas ruas de São Paulo e se sentir bem sem ter culpa alguma. Dá depressão, dá vontade de chorar.
Todos os dias as marquise dos prédios das regiões centrais de São Paulo amanhecem com 7 ou 10 pessoas enroladas num cobertor dormindo misturadas aos lixos jogados na rua, é deprimente, não tem como não ter depressão.






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